miércoles, 21 de abril de 2010

Tanta ganância que nem dá pra acreditar...

Em dias de feriado, nada melhor que retomar a história e relembrar o que de fato estamos “comemorando”. Ou quiçá relembrar porque hoje agradecemos por termos uma folguinha do trabalho – para vocês que estão no Brasil, claro.
Hoje parei para ler mais algumas páginas do livro “Las Venas Abiertas de América Latina” do Eduardo Galeano que até então era livro na fila de espera e faz pouco se tornou o livro que me acompanha. E curiosamente as páginas que li faz pouco falam da grande fase de Ouro Preto e demais cidades mineiras. Delírio e esbanjamento como diz o autor. A tão imponente “idade do ouro” moveu trezentos mil portugueses para esta região e nada mais nada menos que dez milhões (sim!) de negros trazidos de Luanda, Angola e da costa da Guinea para servirem aos senhores mineiros - como uma maneira mais delicada de dizer escravidão. A busca insaciável do ouro e logo depois dos diamantes - que antes eles pensavam que eram apenas “pedras cristais” – levou a uma ambição incalculável onde valia comprar negras para servirem de amantes, negros mais vigorosos para que suportassem mais tempo de trabalho dia e noite e sem deixar de esquecer uma recompensa - em ouro, claro - a quem retornasse a cabeça cortada de um escravo que resolveu escapar. Ser padre era uma desculpa para usurpar ouro de uma maneira mais fácil já que em 1705 não havia um que realmente estivesse “disposto a interessar-se pela fé Cristiana do povo” como cita Galeano. Tal fato estava sendo tão descarado que a “nossa cabeça”... ops, a Coroa, proibiu a fundação de qualquer outra ordem religiosa na região.
Riqueza súbita, luxúria, cobiça. Fortunas, vida pecaminosa, ganância. Do outro lado da moeda, fome, trabalho desumano, desrespeito e submissão. Minas de ouro como locais de suor, terra úmida e fria, trabalho constante, doenças e morte. Morte de muitos para delírio de poucos. “A maior quantidade de ouro até então descoberta no mundo foi extraída no menor espaço de tempo.”
O mais curioso de tudo isto é que todo o ouro levado daqui para a nossa Coroa na verdade só ia de passagem, pois seguia caminho para a Inglaterra em troca de tecidos (ô troca sem vergonha, hein! Até parece um programa que eu me lembro... “Quer trocar isso por isso?” “Siiim!”). Tudo isto se deveu ao Tratado de Methuen que Portugal firmou em 1703 com a Inglaterra. Ouro este que ajudou os ingleses, de maneira considerável, a investirem em desenvolvimento industrial e no setor manufatureiro, coisa que o Brasil tinha a faca e o queijo na mão para poder realizar, mas... Posteriormente, isto ajudou muitíssimo a que a Inglaterra pudesse enfrentar Napoleão, tudo graças a Portugal. Conquistar era uma coisa, ser esperto em cima das conquistas dos demais já era outra. Mas mesmo assim, no Convento de Mafra em Portugal brilha o ouro de Minas Gerais.
E por trás de toda este panorama está José Joaquim da Silva Xavier, o “Tiradentes”, que junto com demais inconfidentes lutaram pela independência desta região, tendo em troca ser enforcado, mutilado e ter as partes do seu corpo expostas em diversas cidades. Era o poder reafirmando suas forças perante as rebeliões. Mas o que vale é relembrar sua luta constante pelo povo de Vila Rica.
O que falo aqui não é assunto novo nem tampouco fato para ser rememorado com intuito rancoroso. Mas sim faz parte de uma história que devemos "re-conhecer". E lembrar que uma luta contra a submissão é direito de qualquer povo. Talvez a nossa antiga Coroa admirasse tanto fazer pactos de maneira gananciosa com demais potências que resultou em presentear suas conquistas. Como o velho ditado que diz: “entregou o ouro para o bandido.” Bandidos e bandidos... Cada um da sua forma, mas na esperteza ainda não sei se “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, mas que tem uns bons anos de vantagem tem sim. E da próxima vez não vale faltar à aula de estratégias de governo.

Claudia Etchepare

Citações do livro: As Veias Abertas da América Latina, Eduardo Galeano